FunBEA inicia diagnóstico territorial para trabalhar apoio às organizações de base da região
Em março deste ano, a pesquisadora e colaboradora do FunBEA, Verena Hauschild, realizou uma visita diagnóstica a territórios indígenas da Caatinga, entre os estados de Pernambuco e Alagoas. Por meio de metodologias investigativas, como a Investigação Geoestratégica, Escuta de Base e Geopolítica do Caminhar, Verena percorreu cerca de 1.200 quilômetros entre o litoral, o agreste e o sertão. Neste contexto de investigação territorial, ela testemunhou complexidades geológicas e crises hídricas, mas também potências culturais em territórios indígenas estratégicos para a regeneração da Bacia do Rio São Francisco.
Após duas semanas de diálogos e trocas com moradores e lideranças, a pesquisadora desenhou um retrato dos contextos territoriais daquela região da Caatinga, um bioma único brasileiro. O objetivo principal da imersão era a construção de um diagnóstico inicial, articulando conflitos e oportunidades para que o FunBEA possa abrir novos caminhos no território, como parte do passo número um do método de atuação do fundo.
Segundo a pesquisadora, os objetivos de sua travessia não eram apenas o levantamento de dados biofísicos (as interações entre seres vivos e o meio ambiente) mas, principalmente, compreender “como está acontecendo no chão do território a conversa sobre adaptação climática e se existem rotas e planos”, diz. Ela também conta que buscou compreender como o manejo de resíduos, o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) e a gestão hídrica podem fortalecer a autonomia dos povos frente à crise climática e às pressões do agronegócio, como fumo, cana e pecuária.
No entanto, Verena ressalta que a realização de um diagnóstico não é apenas uma etapa técnica. “Numa perspectiva regenerativa, (o diagnóstico) faz toda diferença porque evita que a gente tenha um comportamento colonial de levar soluções para problemas que somos nós que identificamos e que talvez o território não tenha ou ignorar potenciais que já estão lá e nós vamos julgar que não estão”, explica.

O itinerário
A imersão teve início na comunidade de Pesqueira, em Pernambuco, no território indígena Xukuru de Ororubá, onde vivem 12.000 membros distribuídos em 24 aldeias. Os Xukuru de Ororubá possuem um histórico de resistência que resultou na retomada de 27.555 hectares de terra indígena. O local é um divisor de águas estratégico, pois é onde nascem rios que drenam tanto para o litoral, quanto para o interior do estado. Tecnicamente, é uma zona de transição entre as Bacias Costeiras e o Alto Ipanema (região do Submédio São Francisco).
Ali, Verena fez uma visita ao coletivo de agricultura e agroecologia Jupago Kreká, formado pelo povo indígena Xukuru do Ororubá. Em seus trabalhos, o grupo dedica-se a recuperar áreas degradadas, resgatar sementes crioulas e promover o Bem Viver por meio da agricultura sagrada e do respeito aos saberes ancestrais.

Visita ao trabalho do coletivo de agricultura e agroecologia do Jupago Kreká. Imagens: Verena Hauschild
Em seguida, Verena rumou para Águas Belas, também no estado pernambucano, onde diagnosticou desafios de justiça hídrica no território indígena Fulni-ô. Os Fulni-ô possuem posse reconhecida de seu território desde 1705, reafirmada após a Guerra do Paraguai e são o único povo do Nordeste que ainda preserva sua língua materna, Yathê. Eles estão localizados na bacia do Rio Ipanema, um dos afluentes mais importantes da margem esquerda do São Francisco. Geograficamente, é a região onde o semiárido atinge sua maior expressão antes da descida para a foz.

Após deixar o estado de Pernambuco, a pesquisadora foi para São Sebastião, município de Alagoas. Sua presença teve maior enfoque no território Karapotó, trecho onde originalmente havia uma Caatinga de aluvião, ou seja, influenciada pelas cheias sazonais do São Francisco. Porém, a presença de hidrelétricas, como a do Xingó, e a construção de barragens, levou a vegetação a perder sua dinâmica de inundação, tornando-se mais seca e vulnerável a espécies invasoras.
No diagnóstico, ela escreve sobre relatos de traumas ambientais deixados pelas barragens e reforça que, para os Karapotó e para os Kariri-Xokó (outra etnia indígena do território), o local não é apenas uma bacia hidrográfica, mas sim o Opará (o Rio-Mar). A alteração do pulso do Opará gera luto permanente entre os povos indígenas, onde o território é um corpo em sofrimento e as cosmologias indígenas ficam limitadas à realização de rituais e práticas espirituais que tinham a vazão natural do rio como elemento fundante.

Por fim, Verena encerrou sua travessia de visita diagnóstica em Porto Real do Colégio, município do estado alagoano, onde vivem indígenas Kariri-Xokó. O local é o trecho final do rio São Francisco antes da foz e hoje enfrenta o desafio da erosão das ribanceiras e da perda do pulso hídrico, ou seja, o subir e descer das águas. No diagnóstico, ela escreve que “o território sofre com a ‘seca induzida’ pelas barragens e pela transposição do rio São Francisco, que eliminou as cheias naturais do rio que nutriam a floresta de galeria. A introdução de pastagens e o uso de agrotóxicos na rizicultura (cultivo do arroz) e canavial do entorno pressionam os remanescentes de mata sagrada”.

A travessia foi, então, o primeiro passo para a abertura de caminhos na Caatinga e o diagnóstico que se originou desse processo, realizado com respeito, tempo e escuta, é uma das prioridades do método territorial de atuação do FunBEA. Verena conversou, testemunhou e diagnosticou uma série de desafios, potencialidades e possibilidades de atuação junto aos povos indígenas para a regeneração da Bacia do Rio São Francisco.
Segundo a pesquisadora, quando o trabalho acontece sob a perspectiva da regeneração, esse diagnóstico se torna ainda mais importante, pois é uma maneira de compreender o invisível, ou seja, o cuidado e o acolhimento com questões que não são exatamente aritméticas, mas que verdadeiramente acontecem – um exemplo é o fortalecimento comunitário. Ela explica que “quando há o reconhecimento de uma trajetória dessas tecnologias que a população local já partilha, é também um processo de regeneração que acontece a partir da dignidade e da autonomia dessas populações”.
Próximos passos
Enquanto esteve no território, Verena realizou articulações institucionais com conselhos regionais, apresentou mecanismos de financiamento para suporte territorial e avaliou a integração dos Planos de Adaptação Climática. Ela também apontou alguns caminhos estratégicos para a atuação do FunBEA, como a implementação dos Centros de Cooperação e Educação Socioambiental, trabalhos em Justiça Hídrica, além de ações de adaptação e resiliência climática.
“Em cenários como esses que visitei, ter a parceria e o relacionamento com o FunBEA também pode significar uma maior probabilidade de organizar recursos, de trabalhar a governança regionalmente, entender possibilidades de redes e parceiros, organizar demandas, realizar uma ponte entre mundos e tornar linguagens de políticas públicas mais acessíveis. Vejo que o FunBEA traz uma incidência política com assertividade, o que é também importante”, explica Verena.
E assim o FunBEA inicia a abertura de possibilidades de atuação em mais um bioma, a Caatinga, e reafirma o método multiterritorial do fundo, que tem o diálogo, o respeito e a participação cidadã como premissas fundamentais.