Abril é o mês de celebração dos 14 anos de (re)existência do FunBEA. Uma organização que nasceu dos sonhos de ambientalistas e pensadores do campo da Educação Ambiental brasileira e vem se consolidando como uma referência para movimentos e coletivos socioambientais que tem a educação comunitária, climática e ambiental no centro de suas ações. 

O FunBEA atua com a Educação Ambiental crítica como princípio norteador, entendendo que, em todo fortalecimento de territórios e comunidades, existem processos educacionais que apoiam o desenvolvimento institucional dos movimentos, coletivos e organizações de base comunitária e que, consequentemente, contribuem para maior participação das comunidades na construção e implementação de políticas públicas. 

Nesta trajetória, o fundo foi desenvolvendo um método de ação baseado no território que acreditamos ser o princípio ativo desta educação crítica que escuta, dialoga e engaja para a transformação social coletiva. Esse método vem sendo aplicado por meio das iniciativas da organização nos multiterritórios que vem atuando no país, a partir do recorte de biomas e com a missão de fortalecer movimentos, coletivos e organizações de base. Como parte desta celebração, fizemos uma análise dos 9 passos que sintetizam este método e como ele materializa as ações de apoio ao longo do amadurecimento do fundo. 

Método Territorial FunBEA: 

Passo 1: Definição do território a ser apoiado

O FunBEA é um fundo multiterritório que atua na interface entre biomas com a missão de fortalecer comunidades por meio do investimento direto, a partir de uma governança descentralizada e em cooperação com atores locais. 

Ou seja, acreditamos no poder do fazer com as comunidades, e não para as comunidades e, por esse motivo, o primeiro passo é a partir da construção de relações com organizações e outros atores que já tenham uma atuação legitimada no território a ser apoiado.

Por exemplo, a parceria firmada entre o FunBEA e a FASE – Solidariedade e Educação, OSC que existe desde 1961 atuando  em seis estados brasileiros, sobretudo no Pará, no bioma amazônico, com desenvolvimento local, comunitário e associativo, para contribuir com o fortalecimento do Centro TIPITI, um Centro de Cooperação e Educação Socioambiental (CECSA) em Belém.

Os (CECSAs) são parte de uma política pública do Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (DEA-MMA), constituídos como espaços de mobilização e engajamento para ações relacionadas ao meio ambiente. O FunBEA, por sua vez, é parceiro do MMA desde o início de sua história, com total sinergia ao trabalho desenvolvido com os CECSAs. 

Essa parceria com a FASE, DEA e MMA tem o intuito de fortalecer movimentos socioambientais que habitam o entorno do Centro, nos 13 municípios do Nordeste paraense da Amazônia Legal, composto principalmente por lideranças mulheres indígenas, ribeirinhas e quilombolas, numa cadeia de sociobiodiversidade. Hoje a parceria está chancelada pelo PPCDAM (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal) e tramita no Fundo Amazônia para mobilização de recursos.  

Equipe no Quilombo África e Laranjituba. Foto: Verena Figueiredo

Passo 2: Estruturação de um Círculo Territorial

Após a entrada em um território realizada em cooperação com uma organização, o FunBEA trabalha com a construção de um Círculo Territorial: uma estrutura composta pelos atores locais, como representantes do governo, academia e movimentos sociais e ambientais para atuarem em sinergia com uma agenda territorial comum. O objetivo é ouvir e aprender com quem tem legitimidade para falar sobre as reais necessidades do território, ou seja, quem vive nele todos os dias. As parcerias firmadas por meio do Círculo acontecem por meio de encontros e de ações conjuntas e coordenadas destes atores.

O trabalho em conjunto com o Círculo Territorial envolve a construção de um mapeamento participativo das iniciativas locais e de um diagnóstico territorial. Os dois documentos orientam e subsidiam a elaboração da Chamada Pública a ser realizada com aquele território. Além disso, os integrantes do Círculo também participam do processo de seleção dos participantes da Chamada. 

Outra contribuição importante, é a atuação do Círculo para mobilizar mais recursos, financeiros e não financeiros, podendo se constituir também como um Círculo de Doação. Essa prática do Círculo Territorial foi estruturada no litoral norte de São Paulo, um dos multiterritórios onde o FunBEA atua.

Integrantes do Círculo Territorial LN. Foto: Allan Yu Iwama (ERRD/Cemaden)

Com a colaboração do círculo, o FunBEA captou  um apoio de aproximadamente R$2 milhões de reais para o litoral norte paulista, que resultou na Chamada Pública FunBEA pela Justiça e Educação Ambiental Climática em 2024 e na Chamada Pública FunBEA Juventude, Educom e Justiça Climática em 2025. Além do processo de captação de recursos, o círculo também colaborou na construção das Chamadas Públicas e na seleção dos movimentos que iriam ser apoiados em 2024. Também tem sido parceiro nas intervenções territoriais realizadas no âmbito da Chamada 2025 com a juventude. 

Atualmente, o FunBEA está captando para a chamada 2026 com a cooperação do Círculo, com o objetivo de dar continuidade ao processo de apoio no território nesta região.

Passo 3: Mapeamento e diagnóstico

A partir da parceria com atores locais, são realizados um mapeamento e um diagnóstico dos territórios a serem apoiados, de maneira quase simultânea à construção do Círculo Territorial. Um depende do outro para que aconteça. 

No litoral norte, o mapeamento realizado com o Círculo Territorial em 2023, logo após a tragédia climática que a região sofreu, levantou um total de 39 organizações que estavam atuando no território no campo da educação e justiça climática. Entre elas, organizações de comunidades tradicionais, que atuavam com agendas de restauração florestal, até agendas de gêneros e formação política das comunidades. Esse diagnóstico foi muito importante para a elaboração da chamada 2024, focada nos temas educação e justiça climática. 

Na região do Vale do Ribeira, no Litoral Sul de SP, também um dos mais impressionantes remanescentes de Mata Atlântica no Brasil, o FunBEA trabalhou com um processo de mapeamento, o “MapEA – Vale do Ribeira e Litoral Sul”. A iniciativa virou uma publicação com o mapeamento de 80 iniciativas que atuam com educação ambiental nos  23 municípios da região, muitas delas sem nenhum tipo de apoio, financeiro ou formador. O foco da ação foi dar um primeiro passo para conectar essas ações, levantando importantes informações que possam contribuir para o fortalecimento e qualificação de seus trabalhos. Dando continuidade a essa iniciativa, o FunBEA busca captar recursos para o território, que se destaca pelo protagonismo nas agendas de agroecologia, restauração e turismo de base comunitária. 

Acesse a publicação MapEA: os caminhos da educação ambiental no Vale do Ribeira e Litoral Sul aqui.

Passo 4: Chamada pública acessível e desburocratizada

Após a estruturação e consolidação da estratégia de atuação territorial em cooperação com organizações locais, inicia-se o processo, efetivamente, de grantmaking (processo de doação). Para isso, é desenhada e construída uma Chamada Pública, considerando  o mapeamento e os saberes dos parceiros locais, e contando também com a experiência do Conselho do FunBEA. As Chamadas Públicas têm o objetivo de apoiar de maneira direta (financeira) e indireta (apoio formador e técnico) o público definido no território. 

Em 2024, por exemplo, a Chamada Pública FunBEA pela Justiça e Educação Ambiental Climática teve um processo de inscrição facilitado para coletivos, movimentos, organizações e lideranças territoriais do litoral norte paulista. 

Além da possibilidade de realizar a inscrição via envio de vídeo (a partir da autodeclaração de dificuldades de escrita), a Chamada também tinha como objetivo apoiar coletivos e organizações não formalizados. Aqueles sem CNPJ podiam se candidatar, então, a partir de uma carta de apresentação do coletivo, um portfólio com fotos contendo as ações desenvolvidas e demais documentos que comprovassem sua atuação, como cartas de recomendação de parceiros. 

Outras estratégias para facilitar o acesso, foram os Fóruns Virtuais tira-dúvidas e as visitas às comunidades locais para divulgação e conversa presencial sobre as possibilidades da Chamada. A presença física nos territórios é importante considerando que, muitas vezes, as comunidades possuem certas limitações de acesso à internet e participação virtual.

O FunBEA acredita que a desburocratização do apoio é uma maneira poderosa de ampliar o acesso a recursos, garantindo que o dinheiro chegue, efetivamente, àqueles que atuam na base da sociedade, e contribuindo com a agenda democrática. 

Passo 5: Seleção das organizações de base

A seleção dos participantes das Chamadas Públicas FunBEA é feita a partir de um trabalho conjunto com os integrantes do Círculo Territorial, utilizando como base os mapeamentos e diagnósticos anteriormente realizados. Dessa maneira, a temática, o público-alvo, os critérios de seleção, os territórios de atuação e todos os outros recortes de apoio são definidos coletivamente, com a participação de atores locais, a partir das demandas apresentadas pelos territórios, ou seja, a governança é do território. 

No ciclo de apoio de 2023, após um mapeamento e um momento de criticidade e fragilidade do território do LN de SP, o Círculo Territorial entendeu que era prioritário apoiar organizações e lideranças comunitárias da comunidade epicentro da tragédia, onde houve milhares de desabrigados e mais de 60 mortes, com uma chuva que entrou pro recorde de maior chuva já precipitada no Brasil. 

Desta forma, foram apoiados 2 movimentos e 2 lideranças locais atuantes na Vila Sahy, município de São Sebastião. Ao mesmo tempo, já foi projetada a chamada pública para 2024, com um apoio amplificado, para 18 coletivos e 5 lideranças locais de 4 municípios que constituem o território (Ubatuba, Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião). 

Primeiro encontro dos selecionados pela Chamada Pública FunBEA pela Justiça e Educação Ambiental Climática. Foto: FunBEA

Passo 6: Apoio direto (financeiro) e Apoio indireto (formador e técnico)

O FunBEA tem como missão fortalecer comunidades e territórios por meio do aporte de recursos em ações locais. Para isso, atuando a partir dos princípios da filantropia comunitária e da doação de confiança, fazemos o repasse do recurso de maneira livre e flexível, ainda que com nosso acompanhamento durante o processo. É importante ressaltar que o FunBEA não tem por diretriz o apoio a projetos, mas sim, ao  território,  por meio do fortalecimento de organizações, lideranças, movimentos e coletivos de base comunitária. 

Trabalhamos a partir do apoio em dinheiro, com o objetivo de desburocratizar o acesso aos recursos financeiros, mas não somente. O trabalho do FunBEA também se caracteriza pelo apoio indireto, ou seja, um apoio formador e técnico. 

Para o apoio indireto, atuamos a partir da metodologia das Comunidades de Aprendizagem, que partem da premissa de um processo educativo coletivo, dialógico e participativo. Além das CAS, o apoio indireto também trabalha com a lógica das  mentorias individuais com cada apoiado, com o objetivo de contribuir com o Desenvolvimento Institucional (DI) dos grupos, levando temas que vão desde a estrutura de governança da organização, a comunicação à mobilização de recursos. 

Assim, unimos o apoio financeiro ao formador e técnico, contribuindo com a construção de autonomia e continuidade na busca e alcance de apoios mesmo após o fim do período de apoio do  FunBEA. Nós acreditamos que territórios com organizações comunitárias fortalecidas e organizadas, são territórios mais potentes e resilientes na luta pelos seus direitos. 

Clique aqui e assista o vídeo completo as Comunidades de Aprendizagem FunBEA

Passo 7: Conexão das agendas territoriais

Nossa ambição não é apenas fortalecer as organizações e coletivos de maneira individual e isolada, mas também reforçar lutas e conectar agendas-comum dos territórios. Ao promover encontros e trocas entre os integrantes dos diferentes coletivos, movimentos e organizações, se contribui com a construção de relações entre aqueles que defendem seus territórios. Ao se reconhecer tanto na dor, quanto na vitória do outro, os sentimentos de isolamento e impotência diminuem, gerando fôlego para seguir na reivindicação de direitos. 

“Eu fiquei maravilhado com a possibilidade de troca entre todos os coletivos e em saber que a dificuldade que vivemos, é a dificuldade do próximo. E que as lutas conquistadas aqui, as vitórias, são vistas como esperança e anseio para os próximos”, conta Diego Ferreira de Sá, membro do Quilombo Caçandoca, um dos participantes da Chamada Pública pela Justiça e Educação Ambiental Climática.

Para o FunBEA, esse é um passo fundamental no fortalecimento das comunidades e territórios, pois é a partir desse encontro e reconhecimento entre os movimentos, coletivos e organizações que também se constrói uma maior participação em espaços de tomada de decisão e formulação de políticas públicas. Ao reduzir a fragmentação das reivindicações e unir as diferentes vozes e experiências, se possibilita uma maior escuta das demandas territoriais – passo essencial para o exercício da democracia. 

Para Semíramis Biasoli, secretária-geral do FunBEA, a conexão das agendas territoriais é o grande diferencial e a grande potência do método FunBEA. “É a força do coletivo. É como todos os movimentos se coordenam e cooperam para incidir nas políticas territoriais e nas causas de enfrentamento das desigualdades sociais e socioambientais. É aí que mora a força, porque é junto que se alcança. Essa é a nossa visão, que vem da nossa raíz educadora”, diz. 

Encontro das Comunidades de Aprendizagem FunBEA no Quilombo da Caçandoca. Foto: FunBEA

Passo 8: Nova mobilização de recursos

Se atuamos para alcançar comunidades e territórios fortalecidos, é necessário pensar a longo prazo e trabalhar com a continuidade do apoio. 

O FunBEA acredita que a mudança de lógica e de narrativas se constrói com mudanças estruturais que levam tempo. Por isso, após os resultados de um primeiro apoio territorial, trabalhamos com uma nova mobilização de recursos para aquele mesmo território, assim continuando a fornecer ferramentas para que o trabalho siga cada vez mais potente e estruturado, gerando uma resiliência permanente daqueles movimentos, coletivos e organizações. Ou seja, nosso trabalho se diferencia dos apoios a projetos (com começo, meio e fim), bem como dos apoios emergenciais, que são fundamentais como resposta a momentos críticos, porém possuem um período menor e mais pontual de atuação. 

A  Chamada Pública Juventude, Educom e Justiça Climática de 2025, foi desenhada a partir da escuta das organizações apoiadas em 2024, que destacaram a importância de engajar a juventude aos movimentos e de produzir informações territoriais, coerentes com a realidade de suas lutas. Desta forma foram chamados a se inscrever no processo jovens atuantes nos movimentos, coletivos e organizações com  interesse em desenvolver a aprimorar suas habilidades como comunicadores comunitários. 

Assim, a Chamada Pública Juventude, Educom e Justiça Climática que, desde agosto de 2025, vem apoiando 52 jovens da região , de forma direta, com bolsas financeiras, e indireta, através de um processo de formação em educomunicação com especialistas da área.

Jovens durante um dos encontros da formação em Educomunicação. Foto: FunBEA

Passo 9: Autonomia no território

O diferencial do nosso método de atuação é a contribuição para a autonomia do território por meio de uma série de ações que tem como base primordial o trabalho junto às comunidades. 

Perseguimos o propósito de comunidades e territórios donos de seus destinos, com independência e autoestima para lutar pela garantia e defesa de seus direitos. Ao fortalecer com recursos, com conhecimento técnico e com conexão, promovemos autonomia territorial para seguir nas articulações e engajamentos de maneira independente. 

Essa autonomia pode se traduzir na busca e alcance de novos apoios com diferentes financiadores, na continuidade das conexões com outros movimentos, coletivos e organizações dos territórios e nas articulações e incidências em espaços de formulação de políticas públicas. 

Em 2025, por exemplo, o FunBEA organizou a articulação da juventude apoiada naquele ciclo para participar da Conferência Local da Juventude sobre Mudança do Clima no Brasil (LCOY). O evento é a versão nacional da COY (Conference of Youth), a Conferência Global da Juventude, que antecede  a COP (Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas).

Este ano, como um desdobramento autônomo, alguns dos jovens apoiados, que participaram da LCOY em 2025, agora integram o corpo organizacional do evento e já estão se articulando, de maneira independente, para colaborar e estar presente na LCOY 2026. 

Jovens do litoral norte paulista durante LCOY em São Paulo. FOTO: FunBEA

Há 14 anos…

O FunBEA atua para o fortalecimento das comunidades e territórios, pois acreditamos que essa é uma maneira de fortalecer também o exercício democrático e de contribuir com a autonomia daqueles que atuam na base da sociedade na luta contra o racismo ambiental e todas as formas de injustiças e desigualdades. Há 14 anos acreditamos que a educação ambiental crítica tem o poder de promover conexões e transformar realidades a partir da incidência em políticas públicas. Há 14 anos acreditamos que nada se constrói sozinho, por isso, agradecemos cada um que esteve nessa jornada conosco. Que venham muitos outros 14 anos!