Comunidade e jovens visitam o Mangue do Araçá e levantam a voz em defesa a natureza e povos tradicionais.

Por: Vitória Amaral e Rubi França, comunicadoras populares do Litoral Norte

Juventude, Educom e Justiça Climática

A juventude do litoral norte do estado de São Paulo tem assumido cada vez mais um papel importante na proteção dos ecossistemas costeiros. Em uma iniciativa de conscientização ambiental, um dos encontros promovidos dentro da formação “Juventude, Educom e Justiça Climática”, foi em prol da região do mangue do Araçá, localizado no bairro Topo Varadouro, em São Sebastião. O encontro mobilizou a comunidade, junto com líderes de organizações ambientais e representantes do Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte, responsáveis pela gestão das águas na região. O foco principal do encontro foi salientar  a importância de preservar e recuperar o ecossistema do mangue, juntamente com a valorização da comunidade tradicional caiçara, fundamental  para esse  território.

Na programação de abertura do evento, a juventude que participa da formação participou de uma roda de conversa onde foram destacados diversos temas de extrema importância, como: a ancestralidade, mudanças climáticas, saneamento básico, destacando a urgência de se criar medidas para conter a ampliação do Porto de São Sebastião, que vem destruindo uma grande parte do mangue.

A intervenção também ganhou um tom de protesto.

A intervenção ficou marcada em um dos muros, localizado na comunidade do entorno do mangue do Araçá, onde os participantes escreveram a frase “ Viva Mangue”, entrelaçada nas raízes do mangue, chamando atenção das políticas públicas da cidade, para a proteção desse importante manguezal.

A intervenção reforça o papel da comunidade na preservação do mangue, mas também na proteção da cultura caiçara. O ato não só uniu e engajou diferentes pessoas, como possibilitou a escuta de um dos mais importantes líderes comunitários na luta pelo mangue, Humberto Almeida, líder do movimento Baía do Araçá, que  demonstra a importância da causa em sua frase: “Hoje pode ser a baía do Araçá, mas amanhã pode ser sua casa”.

Iniciativas como essas demonstram a importância da cultura caiçara e da preservação das águas,  cruciais para o desenvolvimento de toda a região. O caiçara de Caraguatatuba, Pedro Caetano, explicou que os governantes poderiam tomar ações mais sustentáveis para diminuir o impacto nos mangues. “Especulação imobiliária, especulação do Porto que quer sobrepor a área do manguezal, pessoas aterrando o mangue, forçando a entrada e cercando como terreno, são ações comuns, e o poder público não faz nada”. Ele afirmou que eventos como estes, que reúnem a comunidade, são muito importantes.  “Isso é tudo! Temos sempre que estar à frente do nosso território. O manguezal é considerado o berçário dos oceanos, é o mar de vida que tem nele. Sem ele não temos camarão, não temos peixes. Porque 89% dos peixes do oceano, um dia passam pelo manguezal. […] Além disso, o manguezal serve para as comunidades marisqueiras, que vão catar o marisco, a ostra. Além disso, ele é importante porque sequestram o carbono, ele tem o carbono azul”


Gestão das Águas

Mangue do Araçá na beira do canal do Porto de São Sebastião. Foto: Vitória Amaral

 

O Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte vem desenvolvendo uma série de ações voltadas à proteção das águas em território de comunidades tradicionais conciliando a preservação ambiental com a permanência dessas populações em seu local de origem. Ao longo dos anos, o comitê tem financiado projetos nas áreas de saneamento, agroecologia e conservação da biodiversidade, iniciativas como essa contribuem diretamente para a qualidade dos recursos hídricos e para a sustentabilidade desses territórios.

Além disso, o comitê atua por meio de câmaras técnicas especializadas em saneamento, agroecologia, educação ambiental e planejamento. Esses grupos são responsáveis por definir prioridades e orientar a aplicação dos recursos do fundo estadual de recursos hídricos, além de colaborar na implementação e aprimoramento de políticas públicas voltadas à proteção das águas na região.

A participação da população jovem também é incentivada dentro do Comitê, especialmente nas discussões relacionadas à preservação de áreas sensíveis, como o mangue de Araçá.

“Os  jovens podem integrar as reuniões das câmaras técnicas, apresentando demandas de suas comunidades e contribuindo, ao lado de representantes do poder público e da sociedade civil, para planejamento e investimentos futuros” explica Silas Barsotti Barrozo, coordenador da câmara técnica de agroecologia. Essa atuação permite que acompanhem e cobrem a execução de ações voltadas à melhoria da qualidade da água e das condições de vida nas comunidades tradicionais.

Outro ponto relevante é a articulação do comitê com o Grupo de Gerenciamento Costeiro do Litoral Norte, responsável pela implementação do zoneamento ecológico-econômico da região. Esse instrumento estabelece diretrizes para a conservação ambiental e uso sustentável do solo, sendo essencial que reconheça e inclua os territórios tradicionais como áreas de relevância cultural, social e ambiental. “A valorização dessas comunidades e de suas práticas é considerada fundamental para garantir a conservação da biodiversidade e bem viver das populações locais” finaliza Silas.