Como a Chamada Justiça e Educação Ambiental tem florescido entre os movimentos e coletivos apoiados no litoral norte de SP
Em 2025, encerramos o ciclo da Chamada Pública FunbEA “Justiça e Educação Climática no LN de SP”. A partir desta chamada, apoiamos diretamente 18 coletivos e 5 lideranças do litoral norte de São Paulo. Ao longo de um ano de um trabalho conjunto, esses recursos se materializaram na forma de uma Casa de Saúde quilombola, um museu de cultura caiçara, um meliponário, roças, artes tradicionais indígenas e muito mais. E estes são só alguns exemplos do que acontece quando o recurso chega até aqueles que estão na linha de frente dos territórios.
O FunBEA acredita que quando o recurso é trabalhado de maneira que respeite os modos de vida tradicionais, ele se torna uma potência transformadora de realidades. A Chamada Pública FunBEA é um exemplo da efetividade de um trabalho feito a partir da escuta, do diálogo, do fazer junto e da filantropia comunitária, territorial e de presença.
Ao longo do ano, junto com o apoio direto (financeiro), a chamada também trabalhou o apoio indireto (formador), que aconteceu por meio das Comunidades de Aprendizagem FunBEA. Nessa prática metodológica, contribuímos com o fortalecimento institucional dos coletivos e lideranças, com o objetivo de garantir a sua autonomia e a continuidade do trabalho em rede, a partir de agendas comuns de território.
Ao longo do ano, escrevemos sobre alguns dos sonhos que se concretizaram com o apoio da Chamada. Para encerrar 2025, trazemos mais alguns ricos desdobramentos:
Poesia jovem periférica da Mata Atlântica

Em julho de 2024, quando recebeu a notícia de que foi selecionado como a liderança jovem pela Chamada Pública, Brenalta MC escreveu em suas redes: “São quase 10 anos me dedicando ao hip hop, ao rap, freestyle, e tudo que a arte permite. Passa um filme na cabeça de todos os perrengues, perseguições, medos, as batalhas, que a gente ia só com o dinheiro de pegar o busão, que a gente dormia no frio, a fome, as primeiras denúncias que fizeram pra polícia parar com o nosso movimento, os boicotes, o racismo e as inseguranças. Hoje, o sangue estancou nem que seja por uma fração de segundos”.
Pouco mais de um ano depois desse relato, com apoio da Chamada Pública, Brenalta lançou seu novo livro de poesias “Versos que as bocas comem”. Dividido em 3 capítulos, o livro reúne 13 textos autorais e trabalhos de poetas convidados. Suas poesias tocam em temas como amor, desamor, saúde mental e autoestima do corpo negro, além de questões sociais, raciais, políticas e, ainda, sobre a tragédia climática que atingiu o litoral norte de São Paulo em fevereiro de 2023. Os artistas Matriarca, Cleiton Mendes e Laura Conceição assinam a abertura de cada um dos capítulos. O prefácio é de Marcelino Freire e a orelha, de Sérgio Vaz.

Novo livro de Brenalta “Versos que as bocas comem” e Mariane Lima, no evento de lançamento Imagens: Bianca Almeida.
Mariane Lima é gestora de projetos no FunBEA e sobre o livro de Brenalta, diz: “para nós, do FunBEA, é uma alegria profunda ver um jovem artista que acompanhamos e apoiamos por meio da nossa chamada pública alcançar mais uma conquista tão significativa. Acreditamos no poder transformador da arte como ferramenta de educação, identidade, autonomia e justiça socioambiental — e Brenalta prova, com cada verso, que investir na juventude periférica é investir no futuro do território”.
Agrofloresta e arte indígena Guarani Mbya


Investir na juventude ao mesmo tempo em que se garante a continuidade da ancestralidade: é por aí que fazemos e acreditamos. E como exemplo dessa relação ancestral com os territórios, temos o coletivo indígena guarani Ka’aguy Poty Flor da Mata. Ele foi um dos apoiados pela Chamada e, ao longo do processo, desenvolveu um viveiro de mudas nativas da Mata Atlântica e também fortaleceu a prática de artes indígenas da comunidade Rio Silveiras, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo.
Adolfo Werá Mirim, é liderança indígena do coletivo e conta que o viveiro de mudas desenvolvido pelo coletivo trabalha com plantas ornamentais tradicionais da Mata Atlântica, como orquídeas e bromélias. O objetivo, no futuro, é também plantar árvores frutíferas nativas do bioma, mas Adolfo relembra que existem épocas certas para o cultivo de cada uma delas. O próximo passo, segundo ele, é trabalhar com mudas do palmito juçara, nativo da Mata Atlântica.
Junto com o viveiro, o coletivo também fortaleceu a prática das artes e artesanatos tradicionais indígenas guarani. Na comunidade Rio Silveiras, eles produzem cestaria, grafismos, brincos, colares e pulseiras. Outra arte muito presente é a miniatura de animais nativos da Mata Atlântica. “Tucano, gavião, coruja, macacos, onça, os bichos da mata atlântica”, exemplifica Adolfo.

Artes indígenas feitas na Aldeia Rio Silveiras, em São Sebastião. Imagens: Parah Mirim
Semeando e colhendo sonhos
Dizem que o dia que se planta, não é o dia que se colhe. Os resultados colhidos em 2025 são fruto de um trabalho territorial que o FunBEA desenvolve há quase 10 anos no litoral norte de São Paulo. Essa presença, escuta, diálogo e respeito que guiam nossa atuação são fundamentais para o fortalecimento dos modos de vida tradicionais, ancestrais e territoriais. Neste ano, todos nós colhemos os frutos plantados no passado e, mais do que isso, também seguimos plantando para o futuro.
Os coletivos e lideranças que participaram da Chamada Pública hoje se reconhecem enquanto parte de uma agenda territorial comum, compartilhando angústias, dores e sonhos. Essas relações são as sementes plantadas que já deram ricos frutos e que seguirão firmes em 2026. Plantando e colhendo um novo mundo, é por aí que vamos.