Chamada Pública formou uma rede de 52 jovens comunicadores para pautar a crise climática a partir do território de São Sebastião

Em agosto de 2025, o Fundo Brasileiro de Educação Ambiental (FunBEA) iniciou um processo de formação em Educomunicação para os jovens selecionados pela Chamada Pública Juventude, Educomunicação e Justiça Climática. Ao longo de nove meses, os participantes receberam apoio financeiro e técnico para desenvolver e aprimorar suas habilidades em comunicação. Para isso, foram realizados encontros e desenvolvidas oficinas de artes visuais, texto, produção audiovisual e muito mais. Em maio, o apoio indireto via Chamada Pública, que consistiu na formação, chegou ao final do ciclo, tendo como resultado principal uma estratégia inédita de resistência informativa no litoral norte de São Paulo. Hoje, existe uma rede de comunicadores comunitários fortalecida, composta por 52 jovens de São Sebastião, todos participantes de movimentos e coletivos socioambientais do município.

Mais do que um processo formativo, o projeto estabeleceu um ecossistema de mídia local em territórios vulneráveis, onde a juventude assume o papel de protagonista na produção de notícias e outros produtos comunicacionais que conectam a crise climática global à realidade das suas comunidades. O objetivo é claro: fortalecer a comunicação de base para garantir que as populações mais afetadas tenham ferramentas de incidência no debate socioambiental. 

Jovens comunicadores durante um dos encontros da formação em Educomunicação em 2025. Foto: FunBEA

O processo da formação teve início a partir de uma escuta ativa das reivindicações dos movimentos e coletivos apoiados pelo FunBEA em 2024, por meio da Comunidade de Aprendizagem, processo de apoio indireto da Chamada Pública pela Justiça e Educação Ambiental Climática, que apoiou 18 coletivos e 5 lideranças do litoral norte paulista. Ao final deste processo, uma das principais queixas era a dificuldade de mobilizar e engajar a juventude dentro dos movimentos, somada à necessidade de fortalecimento de suas comunicações, com suas próprias vozes e narrativas. O FunBEA, então, ouviu os coletivos e a partir daí, estruturou a Chamada Pública de 2025: Juventude, Educom e Justiça Climática. 

“Vi a formação  como uma grande oportunidade de crescer, aprender mais sobre comunicação e educação e também de levar mais ferramentas para o nosso coletivo, fortalecendo o trabalho que fazemos na região”. O depoimento é de Alerrandro Anthonys Cordeiro de Souza, um dos jovens comunicadores da Chamada Pública 2025. Há mais de um ano, Alerrandro integra o coletivo socioambiental ReÚNA, um dos coletivos apoiados pelo FunBEA em 2024, que atua com gestão de resíduos e Educação Ambiental,  na Escola Municipal Profª Sebastiana Costa Bittencourt, na praia de Barra do Una, em São Sebastião. 

Outro coletivo apoiado em 2024 que também teve representação na Chamada de 2025 foi a Associação Rosas Negras. A jovem comunicadora Ana Beatriz dos Santos Oliveira, conhecida artisticamente como Hyena Takanashi, integra o coletivo há três anos e hoje faz parte das equipes de gestão e de comunicação. “Juntar a ajuda à minha comunidade e formas de expressões artísticas me deixou muito animada. A bolsa também me chamou atenção, senti que poderia ajudar minha família e, pela proposta do chamamento, a minha comunidade em conjunto”, diz Ana Beatriz.

Quem também tem uma forte atuação na sua comunidade e fez parte da formação em Educomunicação, foi a caiçara Mariana Cruz. Ela integra o coletivo Coletivo Caiçara de São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba, que vem recebendo apoio do FunBEA desde 2022 e engloba três municípios do litoral norte paulista (Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela). Mariana também soma forças com a Associação Força Caiçara, da Praia da Fome de Ilhabela, e com movimentos nacionais, como o Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP), a Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras (CNCTC) e a Comissão Nacional dos Povos Extrativistas Costeiros e Marinhos (Confrem). 

Segundo a pescadora caiçara, a formação não garantiu apenas o aprendizado de técnicas e instrumentos, mas também o fortalecimento de conexões entre os jovens de São Sebastião engajados com movimentos socioambientais. “Criamos um laço que vai além da formação, pois aproximou nossas pautas (de luta)”, diz. Recentemente, Mariana e os jovens Igor Fagundes e Carlos Santos, conhecidos artisticamente como Goraco, foram contemplados pelo Edital Culturas Pesqueiras Artesanais do Brasil, do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), por meio da Secretaria Nacional da Pesca Artesanal (SNPA), para desenvolver um projeto de animação que trabalha a valorização da cultura da pesca artesanal, com foco nas mulheres pescadoras. Mariana e a dupla Goraco se conheceram por meio da Chamada Pública do FunBEA e agora, mesmo com o fim da formação, seguem atuando em parceria na construção de um produto audiovisual independente. 

Jovens comunicadores Mariana, Alerrandro e Ana Beatriz. Fotos: Arquivo pessoal

Essa conexão entre os jovens é o grande objetivo do FunBEA. A colaboração entre diferentes experiências, habilidades e conhecimentos em prol de uma causa comum – a defesa do território – é uma poderosa ferramenta de transformação social. Matheus Souza, fundador da Produtora Audiovisual e Cultural Caiçara Mulungu, participou da Chamada e conta que o processo formativo contribuiu para uma melhor compreensão e construção de estratégias de comunicação que funcionam em defesa das comunidades. “Me sinto mais desafiado para me pôr em movimento e aceitar novos desafios, melhorei a visão para problemas que acontecem no território e para como comunicar com a população e com os poderes públicos”, diz. 

A Chamada Pública FunBEA de 2025 reuniu, então, jovens caiçaras, ativistas, artistas, comunicadores, periféricos e, acima de tudo, sonhadores. É importante reforçar que a juventude participante da Chamada já atuava em defesa de suas comunidades, seja nas escolas, espaços comunitários ou territórios tradicionais. Assim, a formação em Educomunicação teve o papel de conectar esses jovens e contribuir com o fortalecimento de suas capacidades em comunicação e com a aproximação dos temas relacionados à justiça climática. O FunBEA acredita que as diferentes juventudes dos territórios conhecem muito bem as reivindicações e necessidades de suas comunidades. O que precisam é de espaços de confiança para apresentarem ao mundo suas ideias, vontades e soluções. E é isso que a juventude de São Sebastião está criando como encerramento da Chamada Pública Juventude, Educom e Justiça Climática. 

Próximos passos: lançamento da plataforma Cumbuca

Protótipo da homepage da plataforma Cumbuca. Foto: Reprodução/Cumbuca

Como encerramento desta fase de formação, no Dia Internacional da Juventude, em 12 de agosto, o FunBEA irá realizar o lançamento oficial do Cumbuca, uma plataforma digital inovadora criada para organizar, dar visibilidade e fortalecer a produção de jovens comunicadores, coletivos e movimentos sociais. Surgida a partir das demandas da formação Juventude, Educom e Justiça Climática, a plataforma está sendo pensada para se consolidar como um portal de curadoria da comunicação comunitária, conectando as vozes que resistem e produzem cultura em todos os biomas brasileiros.

Outro ponto destaque é o protagonismo da juventude durante todo o processo, do planejamento à produção das pautas. A ideia é seguir fortalecendo e alimentando a rede de jovens comunicadores comunitários que se iniciou a partir da Chamada Pública de 2025. “⁠Pretendo alimentar o Cumbuca com as lutas locais, principalmente sobre preservação da natureza, como a luta pelo rio Boiçucanga atualmente”, diz João Gabriel Cataneo Carli, jovem integrante do coletivo de Capoeira Angola Raiz Negra, que participou da formação em Educomunicação.

Assim como João Gabriel, dezenas de outros jovens já estão se articulando para colocar o Cumbuca no ar e ver, na prática, o que acontece quando territórios vulneráveis possuem uma juventude engajada, informada e mobilizada nos temas socioambientais. 

Para além da formação: onde estivemos e o que fizemos

Entre agosto de 2025 e maio de 2026, para além dos encontros formativos em Educomunicação, foram realizadas diversas ações com os jovens comunicadores do litoral norte de São Paulo com o objetivo de engajá-los, criar novas relações e fortalecer os vínculos já existentes entre movimentos e coletivos locais. Dentre as ações, estão a participação em eventos, intervenções artísticas, cobertura de eventos e intercâmbio com jovens de outras cidades da região. 

Participação na Conferência Local da Juventude sobre Mudança do Clima no Brasil (LCOY)

Caravana de jovens da Chamada Pública na LCOY em São Paulo. Foto: FunBEA

Logo no início do processo de formação, em agosto de 2025, 26 jovens subiram a serra para participar da 20 Conferência Local da Juventude sobre Mudança do Clima (LCOY), evento que antecede as Conferências das Partes (COPs) e tem como objetivo mobilizar e articular a juventude, organizando suas demandas para a incidência no maior evento sobre mudanças climáticas do mundo, a COP. 

Dâmaris Olinda, mobilizadora caiçara e indígena do Litoral Norte de São Paulo e uma das jovens participantes da formação, compôs uma das mesas da programação do evento, ao lado da presidente do FunBEA, a ativista climática, Mahryan Sampaio. O tema de debate foi “Justiça Climática, Territórios e Combate ao Racismo Ambiental”. 

Para saber mais sobre a participação no evento, acesse a matéria completa em nosso site e assista ao depoimento de Mahryan Sampaio, presidente do FunBEA. 

Festival Clima em Movimento

Jovem Gabriel Dias de Oliveira realiza entrevista com integrantes do Coletivo Floresta e Mar durante cobertura do Festival Clima em Movimento. Foto: Ed Davies

Em setembro de 2025, o FunBEA realizou o Festival Clima em Movimento, um evento multicultural que levou à Praça dos Estudantes, na Vila Sahy (epicentro da tragédia climática de 2023), uma diversidade de manifestações culturais e diálogos sobre clima, território e educação. Durante o dia, aconteceram apresentações de samba de roda e samba de côco, capoeira, coral indígena guarani, hip hop, desfile de moda e declamação de poesia, todas feitas por lideranças e integrantes de movimentos apoiados pelo FunBEA.

Os jovens comunicadores populares participaram do evento, tanto integrando as rodas de conversa, como contribuindo com a cobertura textual e audiovisual – clique aqui e assista. Para saber mais, acesse a matéria completa sobre o Festival Clima em Movimento. 

Intervenção-Pintura no Instituto de Capoeira Lobo Guará

Intervenção no Instituto Capoeira Lobo Guará. Foto: Sylvio Ayala

Em dezembro de 2025, o grupo dos comunicadores que vivem e atuam entre os bairros de Juquehy e Boiçucanga, realizaram uma intervenção comunitária no Instituto Capoeira Lobo Guará, um dos movimentos que vem sendo apoiado pelo FunBEA desde 2024. Durante a intervenção, foi realizado um graffiti em uma das paredes da sede do Instituto, com o desenho de um mapa mundi que coloca em evidência os continentes da América do Sul e da África. Também foram realizados cartazes ativistas com crianças e jovens que frequentam o instituto. 

Jovens realizadores do graffiti: Carlos Santos, Igor Fagundes e Mariane Garcia. Foto: Sylvio Ayala

Intervenção Graffiti no Mangue do Araçá 

Graffiti realizado no Mangue do Araçá. Foto: Dâmaris Olinda

Seguindo com a intenção de realizar uma troca entre os jovens e os movimentos e coletivos locais de São Sebastião, foi organizada outra intervenção artística, desta vez na sede do Movimento Mangue do Araçá. Em 14 de março de 2026, os jovens estiveram presentes naquele que é um dos últimos remanescentes de manguezais do litoral norte de São Paulo, resultado de um trabalho de restauração desenvolvido há mais de 15 anos pelo caiçara Humberto Messias e pelo Movimento Baía do Araçá. Também durante o evento, foram realizadas rodas de conversa com lideranças comunitárias e anciãs, com a mediação sendo feita por jovens integrantes da Chamada Pública.

Renovação do mural na quadra esportiva da Vila Sahy, idealizado pelos comunicadores Goraco, com colaboração dos participantes do núcleo. A ação contou também com a colaboração da Associação de Moradores da Vila Sahy (AMOVILA).

Intervenção Graffiti na Vila Sahy

Jovens durante intervenção na Vila Sahy. Fotos: Sylvio Ayala

Renovação do mural na quadra esportiva da Vila Sahy, idealizado pelos comunicadores Goraco, com colaboração dos participantes do núcleo. A ação contou também com a colaboração da Associação de Moradores da Vila Sahy (AMOVILA).

Intercâmbios de animação com jovens de Ilhabela, Ubatuba e Caraguatatuba

Intercâmbio realizado na Terra Indígena Yakã Porã (Aldeia Rio Bonito), em Ubatuba. Foto: Silvio Ayala

Como parte do encerramento da Chamada Pública, o FunBEA articulou três oficinas de animação realizadas em outras cidades do litoral norte de São Paulo. Assim, jovens de Ilhabela, Ubatuba e Caraguatatuba tiveram a oportunidade de conhecer e trocar com os jovens comunicadores de São Sebastião, enquanto se familiarizavam com técnicas de animação. As atividades foram conduzidas pelo animador e educador Gil Caserta, referência na área e com atuação em importantes produções brasileiras, como as produções para os Estúdios Mauricio de Souza, Senninha e séries animadas para televisão e web

Parceiros

A Chamada Pública Juventude, Educom e Justiça Climática teve financiamento do FEHIDRO via Comitê de Bacias do Litoral Norte (CBH-LN). Também foram parceiros da iniciativa o Instituto de Educação e Cultura Raízes, a Associação de Moradores da Vila Sahy (AMOVILA) e a Escola Municipal Cynthia Cliquet Luciano, que receberam os encontros formativos em Educomunicação entre os meses de agosto de 2025 e maio de 2026. Para as oficinas em Animação, contamos com o apoio da Associação Barreiros de Ilhabela, da Terra Indígena Yakã Porã (Aldeia Rio Bonito) e do Parque Estadual Serra do Mar, em Caraguatatuba.