Em 2027, o Brasil irá celebrar o centenário do primeiro registro eleitoral de uma mulher na história do país. Celina Guimarães Vianna, uma professora de Natal, no Rio Grande do Norte, foi pioneira ao ser incluída na lista de eleitores do Estado brasileiro, conquista que repercutiu mundialmente. Em 1932, esse direito foi expandido para mulheres de todo o território nacional e, quase um século depois de Celina, tornaram-se parte fundamental do exercício democrático: em 2026, mais da metade do eleitorado brasileiro é feminino – cerca de 53%.
Infelizmente, essa proporção não acompanha a representação política. Nas eleições deste ano, apenas 34% do total das candidaturas são de mulheres, um número que se reduz ainda mais quando olhamos para o percentual de eleitas: apenas 17%. Estes dados demonstram a importância de recompor e qualificar a representatividade feminina.
A partir de um recorte de classe, quando olhamos para os lares beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família, mais de 40 milhões deles são chefiados por mulheres, que compõem 84% da titularidade destes programas. Ainda, segundo dados do IBGE, mais da metade dos lares brasileiros, de maneira geral, têm mulheres como chefes de família. São elas que percebem primeiro as variações na qualidade de vida (lazer, alimentação, saúde), as consequências da implementação ou falta de políticas públicas e, principalmente, são elas quem conhecem e defendem seus territórios e comunidades.
Pode-se listar inúmeras conquistas políticas e de direitos em que as mulheres foram protagonistas, dentre elas as históricas criação do Estatuto da Mulher Casada, as constituintes do Lobby do Batom, a Lei Maria da Penha, a Delegacia da Mulher e muito mais. Mas, para além de todas essas, existem as conquistas cotidianas, ainda muito menos aclamadas. São a manutenção de roças tradicionais, o manejo de recursos naturais, a preservação da cultura alimentar, a transmissão de saberes intergeracionais, a manutenção dos modos de vida ancestrais.
É o cuidado e zelo com aquilo que é coletivo. Elas são parte fundamental de tudo isso, mas ainda são a minoria na representação política. E quando olhamos a partir de outros recortes, mulheres negras e indígenas, por exemplo, possuem ainda menor representação. Dados do TSE ilustram bem esse cenário: mulheres negras ocupam apenas 5,6% das cadeiras da Câmara dos Deputados e menos de 5% de representação no Congresso Nacional, enquanto mulheres indígenas possuem somente quatro nomes de deputadas federais eleitas.
Em 2026, é fundamental apertar o “Confirma” da urna eletrônica com tudo isso em mente. Estamos em uma encruzilhada. É um momento crucial de renovação do Congresso pensando na diversidade de vozes, pluralidade de propostas e ideias em defesa da preservação e manutenção dos territórios, dos modos de vida e da natureza.
Por isso, nós do FunBEA, um fundo independente pela educação ambiental, e que tem majoritariamente seu quadro executivo formado por mulheres, apoia maior presença feminina nos espaços de decisão que defendem políticas públicas mais equânimes, que reconhecem a importância da educação e que lutam pelo meio ambiente e pelo bem viver, para finalmente caminharmos para uma transição de sociedades mais justas. E a candidatura e eleição de mulheres, negras e indígenas, é parte disso.