Em linha reta, mais de 14 mil quilômetros separam São Paulo do Sri Lanka, país localizado no sul da Ásia. Ainda assim, essa distância não foi o suficiente para impedir que o Brasil e o país asiático compartilhassem cicatrizes: em dezembro passado, cerca de 500 milímetros de chuva atingiram o Sri Lanka, um valor muito parecido com o que São Sebastião, cidade no litoral norte de São Paulo, registrou em 2023. Nos dois casos, as chuvas deixaram um rastro de mortes, destruição e prejuízos. Infelizmente, episódios como esse não ficaram no passado.
Nos primeiros meses de 2026, foram registradas chuvas extremas em Moçambique, incêndios florestais devastadores no Chile, uma nevasca histórica nos Estados Unidos. No Brasil, a Zona da Mata, em Minas Gerais, foi atingida por fortes tempestades que causaram mortes e destruição. Paraty, litoral do Rio de Janeiro, declarou estado de calamidade pública após chover mais de 220 mm no território e Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, sofreu com inundações e alagamentos.
Não são coincidências. São consequências diretas das mudanças climáticas, da exploração de combustíveis fósseis e de um modelo de existência predatório, consumista e individualista. A crise do clima é um problema mundial que afeta, sim, de maneiras diferentes os países e territórios, mas que, no fim, chega a todos. Em entrevista ao FunBEA em agosto de 2023, Renata Moraes, Branch Manager da Climate Reality Project Brasil e Coordenadora Executiva da Coalizão Brasileira pela Educação Climática (CBEC), defendeu: “estamos falando de sobrevivência. O clima é um assunto de pessoas que respiram. Se você é uma pessoa, se você está respirando, esse é um assunto que você tem que ter na sua vida”.
Mas como fazer esse assunto chegar a todos? A cada uma das diferentes culturas e realidades que compõem a humanidade? Há um caminho: a Educação Climática. O Artigo 12 do Acordo de Paris, um tratado global adotado em 2015 pelos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), define que os países:
“devem cooperar na adoção de medidas, conforme o caso, para melhorar a educação, o treinamento, a conscientização pública, a participação pública e o acesso público à informação sobre mudança do clima, reconhecendo a importância dessas medidas no que se refere ao fortalecimento de ações no âmbito deste Acordo”.
No âmbito nacional, o governo federal estruturou e publicou recentemente o sumário executivo do Plano Clima, como estratégia central da política climática brasileira. Nele, são estabelecidos três eixos complementares: o Plano Clima Mitigação, o Plano Clima Adaptação e as Estratégias Transversais para Ação Climática. Este último, define que a “trajetória do Brasil na redução de emissões de gases causadores de efeito estufa até 2050 não será apenas uma corrida tecnológica ou financeira, mas também uma jornada educativa e cultural”. Para isso, elenca cinco “sub-eixos”:
- educação formal,
- educação não-formal,
- formação profissional e tecnológica,
- pesquisa, tecnologia e inovação,
- conscientização sobre a mudança do clima
A Educação Climática – com E maiúsculo mesmo – é fundamental para a reflexão, sonho e ação. Uma Educação cidadã, participativa e ética que considere e respeite as diferentes necessidades e nuances dos territórios e comunidades. É o ensino científico do porquê as mudanças climáticas acontecem e como elas atingem as pessoas, aliado à Educação para Riscos e Desastres (ERRD), como já faz o Cemaden Educação, e ao fornecimento de ferramentas para pensar e construir alternativas de futuro. É a sobrevivência do agora e o sonho do amanhã.
Para Semíramis Biasoli, secretária geral do FunBEA, a Educação Climática é um movimento de inclusão de todos os cidadãos e cidadãs e é por meio dela, junto à Comunicação, que é incentivada e fortalecida a participação pública na incidência em políticas públicas. “A educação climática fomenta o protagonismo das pessoas a partir dos seus territórios de atuação. Então, pode ser uma educação que se dá a partir do território escolar, pode ser uma educação que se dá a partir do próprio município. Para o FunBEA, a educação climática é esse instrumento essencial para engajamento da sociedade como um todo. É uma educação que reconhece as forças do jogo e que busca entender as causas e não apenas tratar as consequências que já estamos vivendo das mudanças climáticas”, diz Semíramis.
Educação Climática em espaços formais
De acordo com um levantamento feito pela UNESCO em 2021, 47% dos currículos nacionais de 100 países não faziam nenhuma referência às mudanças climáticas. “(…) Não há solução sem educação. Todos os estudantes precisam entender a mudança climática e ter autonomia para fazer parte da solução, e todos os professores devem ter conhecimento para ensinar sobre o assunto. Os Estados devem se mobilizar para isso”, disse Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO entre 2017 e 2025, no website da agência.
No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que define e orienta os conhecimentos que devem ser adquiridos durante a Educação Básica, faz menção às mudanças climáticas a partir do 6 ano do Ensino Fundamental, com maior ênfase na transversalidade do tema a partir do Ensino Médio. Segundo o Censo Escolar de 2023, são mais de 178 mil escolas e 47 milhões de estudantes no Brasil que possuem o direito de aprender, dialogar e pensar sobre as mudanças do clima e suas soluções.
É a partir da informação que as pessoas constroem ferramentas cognitivas para reivindicar e buscar seus direitos. O conhecimento traz autoestima e contribui com o fortalecimento e incentivo da participação pública em espaços de tomadas de decisão, desde Conselhos Municipais, até a incidência na formulação de Políticas Públicas de abrangência nacional. Por isso, a Educação Climática é uma aliada para a construção do futuro, mas, além disso, ela também é uma ferramenta para enfrentar a crise climática de hoje.
Educação Climática em territórios vulneráveis
Em um contexto em que as consequências das mudanças climáticas já são sentidas nos territórios (inundações, deslizamentos, ondas de calor, etc.), o Cemaden Educação desenvolve um trabalho em parceria com escolas para trabalhar a Educação de Riscos e Desastres (ERRD) no Litoral Norte de SP. “As escolas e as comunidades tornam-se espaços para pesquisar, diagnosticar as condições locais dos riscos, monitorar os fenômenos socioambientais, compartilhar conhecimentos, entender e alertar possíveis desastres”, escreve o órgão em seu livro “Educação em clima de riscos de desastres”.
O Cemaden Educação é um Programa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), instituição de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A partir desse programa, transforma escolas em um Cemaden Microlocal, espaço onde os alunos monitoram o clima, realizam pesquisas e desenvolvem ciência cidadã, além de entender e emitir alertas de desastres, de acordo com o seu website. É o lado emergencial da Educação Climática, fundamental para comunidades que vivem em locais vulneráveis a eventos climáticos extremos.
Entre 2016 e 2017, o Cemaden Educação começou a atuar no litoral norte de São Paulo a partir de ações da Câmara Técnica de Educação Ambiental do Comitê de Bacias do Litoral Norte (CBH-LN). Assim, em 2019, fizeram parte do lançamento do “Curso de Educação para Redução de Riscos e Desastres no Litoral Norte de São Paulo”. A iniciativa foi idealizada pela Diretoria de Ensino da Região de Caraguatatuba em parceria com o Cemaden, o CBH-LN e o Instituto Geológico (IG). Contou ainda com o apoio do Instituto SuperEco e Universidad de Los Lagos. Participaram da formação 55 pessoas, dentre professores de escolas estaduais, municipais, particulares e do Instituto Federal de Caraguatatuba, além de representantes da Defesa Civil municipal e integrantes da comunidade.
O curso foi dividido em cinco módulos: Conhecendo nosso território; Ciência cidadã e Educação em RRD; Comunidades seguras – resiliência por meio da educação; Cartografias e plataformas digitais para gestão de riscos de desastres e identificação de riscos costeiros e Apresentação de projetos pedagógicos em ERRD. São esses eixos que vêm sendo utilizados como base para capilarizar outras ações no território.
A mais recente é a Campanha Aprender para Prevenir – Cidades sem Riscos, com o objetivo de engajar pessoas e instituições territoriais para mobilizarem suas comunidades em ações que dialoguem com ciência, justiça climática, educação e comunicação. É uma “Campanha de Campanhas”, como definem em seu website. A #AprenderparaPrevenir tem a intenção de fortalecer a educação, a prevenção de riscos e a adaptação climática, além de apoiar e reconhecer comunidades para ação transformadora.

É essa Educação que o FunBEA quer apoiar e é por essa perspectiva que atuamos: o fazer junto, a partir de processos de diálogo e escuta ativa. Diagnosticar os anseios e necessidades territoriais, considerar as características locais e as vontades das comunidades são peças fundamentais para construir um modelo de Educação Climática efetivo. E essa forma de atuação pode se expandir para além das escolas, levando essa Educação para espaços não-formais.
Educação Climática em espaços não-formais
A Educação, compreendida enquanto um processo contínuo de aprendizado, acontece também fora das escolas. A vida em comunidade, a participação em manifestações culturais, a observação cotidiana dos impactos das mudanças climáticas, a construção das vontades e sonhos comunitários são, também, parte de um processo educador. É nisso que o FunBEA acredita. Por esse motivo, atuamos a partir da perspectiva de um apoio indireto, ou seja, formador, aliado aos apoios financeiros.
Em 2024, durante a Chamada Pública pela Educação e Justiça Climática, desenvolvemos as Comunidades de Aprendizagem FunBEA, uma metodologia de formação colaborativa, compartilhada e coletiva. A cada encontro com os integrantes dos movimentos e coletivos apoiados pela Chamada, eram trabalhados temas como justiça climática, Soluções Climáticas Locais e Coletivas (SCLCs) e o fortalecimento institucional de organizações de base comunitária. Foram cerca de 289 horas junto a coletivos e movimentos e 175 horas junto a lideranças.
“Eu enxergo as Comunidades de Aprendizagem como uma ferramenta fundamental para aproximar as pessoas do tema das mudanças climáticas, porque elas transformam um assunto que parece distante em algo real, vivido e sentido na nossa própria comunidade”. O depoimento é de Marcelo Silva, fundador do Instituto Capoeira Lobo Guará, um dos coletivos apoiados pela Chamada e que esteve presente nos encontros.
Para Marcelo, a proposta de aprendizado coletivo foi fundamental para entender o impacto da crise do clima no cotidiano das comunidades. “Quando a gente conversa, troca experiências e escuta diferentes pontos de vista, percebemos que as mudanças no clima não são só números ou notícias da televisão. Elas afetam diretamente a nossa água, as nossas árvores, as abelhas do nosso meliponário, a produção de alimentos e a qualidade de vida das famílias, impacta em toda comunidade”, conta.
Hoje, mesmo após o encerramento da Chamada Pública 2024, o Instituto Capoeira Lobo Guará segue trabalhando com o tema das mudanças climáticas na comunidade onde atua. O coletivo, que surgiu como um local para aulas de Capoeira, a partir do apoio financeiro e formador, desenvolveu também o meliponário “Guardiãs da Mata”, como um espaço que, além de contribuir com a biodiversidade, também é uma ferramenta de educação e sensibilização.
“Eu falo sobre mudanças climáticas e prevenção de riscos com as crianças e com toda a comunidade, porque acredito que informação gera consciência e atitude. A capoeira nos ensina estratégia, equilíbrio e responsabilidade. E é isso que levamos para o tema do clima: agir antes do problema crescer. Prevenção é consciência em movimento”, finaliza Marcelo.

Diretrizes de Educação Ambiental Climática
Em 2023, lançamos as Diretrizes de Educação Ambiental Climática em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Cemaden Educação, como desdobramento de uma pesquisa realizada em 2023 que mapeou o estado da arte da Educação Ambiental Climática no Brasil em espaços formais e não formais. As diretrizes foram construídas a partir de um processo participativo e colocadas em consulta pública aberta à toda a sociedade, antes da sua publicação.
O documento, disponível para livre acesso, reúne 10 diretrizes para orientar ações práticas para o enfrentamento da crise climática por meio da educação. A proposta é que sejam lidas como um fluxo: todas se interconectam e se relacionam, proporcionando, assim, uma visão integrada do conjunto de fatores que impactam a crise climática. Ao mesmo tempo, elas também podem ser compreendidas separadamente, orientando ações pontuais que, ao se relacionar com outras ações guiadas pelas diretrizes, funcionam como ferramentas integradas de enfrentamento às mudanças climáticas.
“As diretrizes abrem um leque muito grande e completo. A ideia é que seja um fluxo, uma cadeia de relações de diferentes áreas, diferentes setores que impactam a questão climática. E por outro lado, elas também seccionam e orientam a construção de um projeto”, explica a secretária geral do FunBEA, Semíramis Biasoli.

Seja em escolas, organizações comunitárias, associações de bairro, universidades ou espaços de incidência e construção de políticas públicas. A realidade é que não há mais como negar o impacto das mudanças climáticas no cotidiano da humanidade. No Sri Lanka, em São Paulo, Estados Unidos ou Minas Gerais, todos e cada um desses lugares são afetados pela crise do clima. É urgente a construção e concretização de ações e de recursos para Educação Climática, pois o conhecimento é uma poderosa ferramenta de mudança de mundo.