Por Grace Luzzi

Neste domingo, estive com duas lideranças comunitárias em São Sebastião, cidade do Litoral Norte de São Paulo. Estava chovendo muito — muito mesmo —, mas elas seguiam a caminho de uma das comunidades da região para visitar famílias que estavam sofrendo com os alagamentos. Isso porque chove há uma semana, com picos de precipitação bastante preocupantes: 100 milímetros ou mais. Rapidamente, as ruas ficam alagadas, os bueiros transbordam, a lama se espalha por todos os lados e, mais uma vez, pessoas perdem tudo o que têm. A chuva passa, mas ficam a ansiedade, a angústia e o medo.

Em 2023, a cidade ficou conhecida em todos os noticiários do Brasil em função de um evento climático. Foram muitas mortes e meses de caos. Uma parte importante da população, no entanto, chama esse “evento” de “tragédia-crime”. Essa visão reflete o trabalho incansável das lideranças locais e movimentos populares.

Fazer com que a população de um território atingido por deslizamentos, enchentes, tragédia e morte reconheça a responsabilidade dos governos e exija seus direitos é educação ambiental. Comunidades periféricas e tradicionais que se organizam em coletivos, associações e movimentos pelo bem comum, fazem educação ambiental. Uma população que, mesmo após uma tragédia-crime, com tantos dilaceramentos socioemocionais, continua lutando e se manifestando contra as injustiças, faz educação ambiental. Prevenção de riscos e desastres, agir para a adaptação climática, é educação ambiental.

Essa educação nasceu na América Latina, na década de 60, em um contexto político antidemocrático no Brasil, e cunhou o conceito socioambiental ao reconhecer a necessidade de combater as desigualdades para proteger a natureza. Reconheceu o valor da ação local, que mobiliza e forma coletivos, e que luta para que se faça justiça social e climática.

Há quase dez anos, o FunBEA trabalha com os movimentos sociais do Litoral Norte de São Paulo, acreditando no empoderamento comunitário. Acreditando que os planos de adaptação climática devem ser pensados junto às comunidades; que as soluções baseadas na natureza são tecnologias ancestrais — muitas delas — que os povos tradicionais podem ensinar a todos; e que o diálogo e os momentos de troca são essenciais para o bem viver e para a construção de uma sociedade mais justa.

Depois de me despedir desses amigos, que seguiam comunidade adentro para ver como estava a situação, a chuva aumentou ainda mais. Não demorou para que chegassem alertas da Defesa Civil e mensagens de amigos e conhecidos com as casas alagadas. Pouco depois, as escolas municipais passaram a ser ocupadas por famílias que precisaram evacuar suas casas.

Hoje, Dia Mundial da Educação Ambiental, aqui em São Sebastião, é um dia de ação. As comunidades precisam lavar a lama de suas casas; as pessoas precisam se ajudar para se reorganizar. Mas, sobretudo, precisam estar juntas para exigir uma vida digna, em harmonia com o bioma onde residem. A educação ambiental se traduz no acolhimento que as lideranças comunitárias locais levam de bairro em bairro, oferecendo a oportunidade de todos se escutarem e compreenderem que é necessário caminhar juntos para evitarmos dias como o de ontem.

A educação ambiental se faz depois da chuva.