Por: Semíramis Biasoli, Secretária Executiva do FunBEA

O fortalecimento do pensamento crítico, a criação e ação coletivas, o encontro entre diferentes, a atuação estratégica em rede, a preservação da natureza e dos modos de vida tradicionais, a transição para sociedades mais justas e sustentáveis. Todas essas – e muitas outras mais – são ações que compõem a Educação Ambiental crítica em que o FunBEA acredita e pela qual atua desde sua fundação. Para nós, a EA não é apenas um campo de estudo ou um tema de financiamento, mas sim uma área plural e transversal que engloba uma série de possibilidades de atuação para a transformação do mundo. 

Ao longo de nossa trajetória, desenvolvemos um método próprio que tem a Educação Ambiental crítica como guia. Por meio dele, acreditamos contribuir com o fortalecimento de territórios e comunidades a partir do apoio financeiro (cumprindo nossa missão enquanto um fundo), mas não apenas. Atuamos também com o apoio indireto (formador), baseado na educação popular e com o objetivo de fazer com que atores territoriais se reconheçam enquanto agentes de mudança e, mais do que isso, que reconheçam que é necessário a luta pelo bem comum em cada comunidade. 

Encontro de coletivos, movimentos e organizações do litoral de São Paulo apoiadas pelo FunBEA em 2024. Foto: Bianca Almeida

EA como estratégia de fortalecimento territorial

É esse arranjo entre recursos financeiros e processos formadores que compõe a base de nosso trabalho. O apoio pode ter seus resultados potencializados se realizado de maneira articulada com dinheiro e momentos dedicados à troca entre pares, com a partilha de saberes locais. Em nossas Comunidades de Aprendizagem (CA), metodologia que utilizamos para o apoio indireto (formador), observamos exatamente isso: a importância de momentos em que os atores locais tenham disponibilidade de tempo para refletir sobre o trabalho que fazem e o que querem fazer. É o incentivo à reflexão e ação, princípio fundamental da Educação Ambiental crítica. 

Esse incentivo acontece, por exemplo, quando durante o processo formador, encorajamos os movimentos, organizações e coletivos a trabalharem em seu Desenvolvimento Institucional (DI). E quando falamos em DI, estamos nos referindo ao fortalecimento de capacidades, à organização interna e à governança, mas também às relações que esses atores territoriais estabelecem entre si, fortalecendo uma atuação política em rede. E a Educação Ambiental é a alavanca para que o DI aconteça dessa maneira dialógica e reflexiva, pois ela impulsiona a perspectiva de transformação política e o fortalecimento de redes e alianças.  

Durante uma das Comunidades de Aprendizagem FunBEA, Diego Ferreira de Sá, membro do Quilombo da Caçandoca, contou: “eu fiquei maravilhado com a possibilidade de troca entre todos os coletivos e em saber que a dificuldade que vivemos, é a dificuldade do próximo. E que as lutas conquistadas aqui, as vitórias, são vistas como esperança e anseio para os próximos”. O Quilombo foi um dos apoiados da Chamada Pública pela Justiça e Educação Ambiental Climática entre 2024 e 2025 e entre as soluções climáticas locais e coletivas que desenvolvem por lá, está a primeira casa de saúde ancestral do litoral norte, que mescla saberes ancestrais com medicina tradicional.

Um dos encontros das Comunidades de Aprendizagem FunBEA. Foto: FunBEA

Além das conexões, do incentivo ao pensamento crítico e do fortalecimento da autoestima enquanto agentes de mudança, nosso trabalho também toma forma concreta nos territórios por meio de museus da cultura local, livros, eventos culturais, meliponários, hortas agroecológicas, viveiro de mudas e muito mais. 

Outra iniciativa que tem raízes nessa educação ambiental que olha para causas, é o Círculo Territorial, que temos colocado em prática desde 2023 no Litoral Norte de SP. Trata-se de uma instância de governança participativa, onde diferentes atores locais participam para discutir os caminhos para o território. O FunBEA é o mediador dessa prática que nasceu após um grande desastre climático na região, que registrou dezenas de mortes e milhares de pessoas desabrigadas, além da destruição das florestas nativas.

O território recebeu muito recurso de doação emergencial mas, sem uma base de governança, o dinheiro chega num território em caos e facilmente pode se perder. A partir do círculo, o FunBEA ficou responsável por uma parcela desse recurso e vem descentralizando ele por meio de chamadas públicas, tendo o apoio do círculo para garantir a transparência dos processos de eleição dos atores beneficiados. 

Esses são alguns poucos exemplos de como o nosso trabalho é fundamentalmente orientado pela Educação Ambiental crítica, que tem Paulo Freire como referencial. Quando priorizamos essa atuação em cooperação, com escuta, respeito e incentivo ao pensar, caminhamos em direção a comunidades e territórios resilientes e fortalecidos em si e em suas lutas, com autoestima para defender seus direitos e fazer reivindicações. Isso é Educação Ambiental, a base fundante de nossa atuação. 

Visita à Aldeia Renascer, em Ubatuba. Foto: FunBEA
Mulheres do Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba. Foto: Bianca Almeida
Roda de conversa sobre Clima, Direitos, Juventude e Justiça Climática durante Festival Multicultural promovido pelo FunBEA. Foto: Ed Davies
Coral guarani durante Festival Multicultural promovido pelo FunBEA. Foto: Ed Davies