Por Grace Luzzi

Uma onda de calor sem precedentes assolou a Europa recentemente, deixando um rastro de mais de mil mortos no continente. Em Londres, uma das capitais mais ricas do mundo, a infraestrutura vacilou: escolas fecharam, o transporte público foi afetado e a rotina parou. O calor extremo que vivemos na pele na capital inglesa não foi apenas um pano de fundo desconfortável, foi um lembrete físico e urgente de que a adaptação climática não é um debate para o futuro. É uma emergência do agora.

Foi sob esse cenário de crise real que o FunBEA esteve presente na London Climate Action Week deste ano. Como um fundo independente que mobiliza recursos para alcançar as comunidades de base e que luta incansavelmente pela justiça climática no Brasil, nossa missão em Londres foi clara: ecoar as vozes do Sul Global e mostrar que as soluções para a crise climática já estão acontecendo nos territórios, precisando apenas do investimento correto para ganhar escala.

A força do Sul Global: caminhos seguros para o financiamento filantrópico

Nossa agenda foi intensa e descentralizada, cruzando uma Londres em ebulição ao lado de parceiros fundamentais da Casa Sul Global – membros que compõem a Rede Comuá e a Alianza Fondos del Sur. O ponto alto dessa articulação foi o evento “Pathways for resourcing community-led climate solutions: A multistakeholder dialogue promoted by Global South funds”, que teve lotação esgotada.

O debate mediou uma das maiores dores de cabeça do ecossistema filantrópico: como fazer o dinheiro chegar à ponta com segurança, diminuindo os riscos para doadores e investidores?

A resposta construída coletivamente no painel mostrou que fundos independentes e comunitários, como o FunBEA, são justamente as pontes estruturadas para isso. Nós construímos caminhos transparentes e seguros que mitigam riscos institucionais, garantindo que o recurso financeiro acelere soluções climáticas locais com impactos globais. Financiar a base não é um risco, é a estratégia mais eficiente para a justiça climática.

Sociobioeconomia e o desafio do consumo consciente

Outro eixo crucial de nossa participação foram os diálogos sobre a sociobioeconomia, especialmente no evento “Unlocking the Socio Bioeconomy”, promovido por marcas e organizações de peso como Natura, Instituto Arapyaú, B Lab UK, B Corp Beauty Coalition, Saïd Business School e Volans.

Ali, a provocação foi complexa: como aumentar a escala das cadeias de produção da sociobiodiversidade sem esgotar os recursos naturais dentro da ótica do sistema capitalista?

As discussões convergiram para duas conclusões urgentes:

  1. Educação para o consumo: é preciso reeducar o mercado e os consumidores globais.
  2. Respeito à sazonalidade: compreender e respeitar os ciclos e o tempo da natureza é a única forma de criar redes sociobioeconômicas seguras, prósperas e que mantenham a floresta e as comunidades em pé. O mercado precisa aprender a se adaptar à natureza, e não o contrário.

A Caatinga em destaque na passarela global

Mesmo na correria de eventos espalhados por toda a cidade, o FunBEA pôde testemunhar a força da cultura brasileira em solo britânico através de uma exposição de roupas e acessórios desenvolvidos a partir de materiais da Caatinga, organizado pela Brazil Creating Fashion for Tomorrow (BCFT), com apoio da Embaixada do Brasil em Londres, do Instituto Imbuzeiro, Instituto Arapyaú e da ApexBrasil.

Ver o bioma semiárido brasileiro em destaque mundial foi emocionante. A moda, com sua linguagem visual poderosa, serviu como um fio condutor para uma discussão profunda sobre os impactos que os territórios da Caatinga sofrem com secas severas e o calor extremo. Foi a prova de que a resiliência e a potência criativa do Brasil profundo têm muito a ensinar ao mundo.

O recado de Londres

A London Climate Action Week nos mostrou duas realidades que se cruzam. De um lado, a urgência climática batendo à porta de cidades hiperdesenvolvidas que ainda não estão prontas para o novo normal climático. Do outro, a potência dos fundos independentes e das organizações do Sul Global que, apesar de gerenciarem a escassez de recursos, já sabem como aplicar soluções baseadas na natureza e na comunidade.

Se os grandes investidores e líderes globais querem, de fato, mitigar os impactos da crise que parou a Europa nesta semana, eles precisam olhar para onde a transformação já está acontecendo. E o caminho mais seguro para isso passa pela confiança nos fundos independentes.