“Os Quintais Produtivos são várias coisas para nós. Primeiro, são espaços de produção de alimentos, mas também são os territórios de pertença das pessoas, é o lar de cada um que passa a integrar a Rede. Os Quintais Produtivos são as ações de implementação, manejo, apoio e consultoria que realizamos entre os próprios quintais”. O depoimento é de Eduardo Ueda, integrante da Rede de Agroecologia, Pesca e Cultura de Caraguatatuba (RAPECCA), que desenvolve, entre outras ações, o projeto dos Quintais Produtivos no litoral norte de São Paulo.
Os Quintais se colocam enquanto uma iniciativa que vai muito além da produção de alimentos agroecológicos. Eles são, principalmente, uma ferramenta comunitária de reconexão com o território e com os modos de vida da população caiçara. É o plantio, manejo e colheita de alimentos tradicionais feitos a partir de uma lógica ancestral de respeito aos tempos da natureza e das comunidades.

É por isso que os Quintais Produtivos são, em essência, um exemplo de sociobiodiversidade, conceito que vem ganhando tração nos diálogos sobre modos de vida sustentáveis, e que compreende que não há separação entre seres humanos, natureza e modos de vida. Na realidade, a sociobio é o oposto da fragmentação. Ela entende que existimos em um grande ecossistema interligado e transformado pelo vínculo entre culturas tradicionais, pessoas, territórios, terras e águas. Na prática, ações da sociobiodiversidade compreendem, por exemplo, a valorização de cadeias produtivas tradicionais, a produção de biojoias, o Turismo de Base Comunitária (TBC), a pesca artesanal e a agroecologia.

Fotos: RAPECCA
Ações como essas podem ser encontradas em todo o Brasil, espalhadas pelos biomas, praticadas em diferentes territórios e sob a perspectiva de diversos saberes. Um outro exemplo é o Muxirum, apresentado pela FASE – Solidariedade e Educação em seu “Caderno de Formação: Sociobiodiversidade”. Na publicação, a organização explica que Muxirum é uma palavra de origem tupi, com significados como mutirão ou trabalho em grupo, utilizada para designar uma forma de organização social realizada por comunidades tradicionais pantaneiras, indígenas e quilombolas da baixada cuiabana, no Mato Grosso. No Muxirum, são desenvolvidas ações coletivas relacionadas ao plantio, colheita e preparo de alimentos por membros de diferentes famílias, de maneira intercalada.
Durante as atividades, a troca de conhecimentos entre aqueles que participam é valorizada, fortalecendo os saberes ancestrais e centenários de agricultores e agricultoras. Ao fim do plantio, colheita e preparo, parte dos alimentos é direcionada para o consumo coletivo durante celebrações religiosas ou comunitárias e outra parte é vendida, com o dinheiro destinado para o território. Isso é sociobiodiversidade na prática.

Além do fortalecimento das tradições e conhecimentos ancestrais e da produção de alimentos, o Muxirum se configura como um exemplo de sociobiodiversidade também por outro motivo. A troca, a cooperação, o comunitário e o coletivo são características das comunidades tradicionais que ainda mantêm vivos modelos de existir que não sejam baseados na expropriação e acúmulo de capital. Uma vida boa, é uma vida boa para todos. Isso também é sociobiodiversidade.
No litoral norte de São Paulo, os Quintais Produtivos da RAPECCA acontecem nos mesmos moldes coletivos. “A cooperação simples é o motor que sustenta a nossa rede de quintais. Para fazer parte é simples, basta você colaborar nos manejos dos outros quintais, que as pessoas irão apoiá-lo mutuamente”, conta Eduardo Ueda.
Também no território do litoral norte paulista, acontece um outro exemplo prático de sociobiodiversidade. A Terra Indígena Yakã Porã (Aldeia Rio Bonito), localizada próxima à praia de Itamambuca, em Ubatuba, realiza um trabalho de Turismo de Base Comunitária (TBC) liderado, principalmente, pelos jovens da comunidade. Os roteiros integram uma série de atividades, como visita à roça tradicional, palestra e roda de conversa, atividade musical, conhecimento do processo de cestaria, prática de arco e flecha, banho de rio e muito mais.
Os roteiros foram pensados e construídos pelos jovens da Rio Bonito, o que contribui com a autonomia e protagonismo da comunidade no processo de implementação do TBC e, principalmente, sobre o seu próprio território e modos de vida. São aqueles que vivem e existem na T.I Yakã Porã que definem o que será apresentado aos visitantes e são, também, os principais beneficiados, pois a renda gerada por meio do TBC retorna para a comunidade.
“O turismo de base comunitária fortalece o jovem nas suas comunidades, nos seus territórios e ao mesmo tempo é uma renda para a juventude, para as famílias. É fundamental”, diz Ivanildes Kerexu, liderança indígena da Aldeia Rio Bonito, sobre a iniciativa no território.

Mas o benefício não vem apenas no formato de renda. Ele acontece também na compreensão das possibilidades e no fortalecimento da autoestima. “O Turismo de Base Comunitária faz com que a própria aldeia, a própria comunidade tenha essa visão de que não é só uma empresa que tem uma forma de fazer. A comunidade também tem essa possibilidade, eles também podem e conseguem gerir um Turismo de Base Comunitária com as suas próprias formas de conduzir, com as suas próprias organizações”, diz Ivanildes Kerexu. O respeito aos diferentes modos de vida também é sociobiodiversidade.
A sociobiodiversidade, então, se caracteriza principalmente pela sua abundância. Uma abundância de diferentes práticas, que reúnem diversos saberes e acontecem em múltiplos territórios. Uma abundância subjetiva de fortalecimento da autoestima, do sonho e da possibilidade por meio da escuta e apoio concreto aos modos de vida tradicionais e ancestrais. As ações da sociobiodiversidade são ferramentas de mudança de mundo, pois possuem como protagonistas aqueles que coexistem com o planeta e com outros seres a partir da ideia do equilíbrio e do respeito.